Resumo do terceiro congresso da REBRAC, Copenhague, outubro de 2018

(Para português ver a seguir)

Around thirty-five scholars came together in Copenhagen in October 2018 for our third REBRAC conference, with 18 presenters from six different European countries, as well as from Brazil and the US, sharing their work over two days. The theme this year was Living (Il)legalities, through which we sought to carry out a cultural exploration of the grey area between the legitimate and the illegitimate: a more or less hidden field of common day-to-day practices which might be not legal any more, or not yet legalized, legal but socially not accepted, or just deemed beyond any legal normalization due to their complexity. The conference kicked off with an excellent keynote by Daniel Hirata (UFRJ) whose focus was street traders in Rio and São Paulo, based on ethnographic research carried out at the Feirinha da Madrugada in São Paulo and the Uruguaiana camelódromo in Rio.  Hirata analysed the complex web of relations between opportunistic and more established street traders, private security firms, the police and local government, highlighting, for instance, how the process of militarisation of civil society is already well under way in these contexts. The discussion of illicit occupation of urban spaces was continued by Silvia Zelaya (UFRS) in her account of resistance strategies, including musical and film production, developed by immigrants and refugees in squatter settlements in São Paulo. Likewise the role of private security guards was revisited by Erika Robb Larkins (San Diego State University) in her fascinating account of training alongside new recruits to a hospitality security programme.

What emerged in these and a number of other presentations were nuanced reflections on the intersection between the law as it is broadly understood, and the occupation of different spaces, whether these be the transgressive teatro de revistaor bawdy music hall in downtown areas in the early 20th century, as explored by Lisa Shaw (University of Liverpool), the Brazilian senate as kangaroo court as witnessed in the film O processo (2018), as discussed by Stephanie Dennison (University of Leeds), the street after dark as portrayed in O som ao redor (Sara Brandellero, Leiden) or the favela as pacified space (Christoffer Guldberf, King’s London). Brazilians abroad, both legally and illegally, emerged as another popular theme, with presentations on fiction written by/about illegal Brazilian aliens (Claire Williams, Oxford and Anderson da Mata, UnB), and perceptions and self-perceptions of Brazilians based in London (Daniel Buarque, King’s London and Daniel Robins, St Andrews).  A number of papers touched on the issue of citizenship and its implications when one’s rights or legal status are under threat or unclear (Allane de Souza Pedrotti, PUC-Rio; Bianca Freire-Medeiros, USP), and others drew attention to strategies of resistance to combat these issues (Tori Holmes, Queen’s Belfast; Maite Conde, Cambridge). Malandragem and jeitinho as cultural conceits perhaps inevitably inflected the work of a number of presenters and ensuing discussions: day two’s keynote by Freidrich Frosch (University of Vienna) offered a broad overview of both in relation to Brazilian literature.

The film screening and Q and A (with Adriana Jacobsen) fitted the conference theme and pre-election mood like a glove: Outro sertão (Another Sertão, Adriana Jacobsen and Soraya Vilela, 2013) depicts the contribution of Guimarães Rosa, when he was Vice-Consul in Hamburg during WWII, to helping Jews escape Nazi Germany by bending consular rules and issuing them with tourist visas for Brazil.

The conference revealed a wide interdisciplinary approach to reading Brazilian culture, with presentations from scholars working out of Anthropology, Sociology, Literary Studies, Film Studies, Digital Culture, Politics, International Relations and Sociolinguistics. A number of presenters were early career scholars who confidently presented their PhD-based research alongside more established scholars.

The conference schedule afforded plenty of time for discussion, which frequently returned to the impending presidential elections. A large number of delegates expressed considerable apprehension over the rise of intolerance and prejudice in Brazil, and concern for the future of democracy and academic freedom. The relevance of the work of REBRAC in offering a supportive and congenial space for promoting Brazilian Studies was felt all the more keenly as a result of this apprehension and concern.

Stephanie Dennison

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Cerca de 35 acadêmicos se reuniram em Copenhague em outubro de 2018 para a nossa terceira conferência REBRAC, com 18 apresentadores, de seis países europeus diferentes, bem como do Brasil e dos EUA, compartilhando seus trabalhos ao longo de dois dias. O tema deste ano foi Vivendo (I)legalidades, através do qual procuramos realizar uma exploração cultural da área nebulosa entre o legítimo e o ilegítimo: um campo mais ou menos oculto de práticas cotidianas comuns que podem não ser mais legais, ou práticas ainda não legalizadas, legais, mas socialmente não aceitas, ou apenas consideradas difíceis de situar dentro de quaisquer normas legais devido à sua complexidade. A conferência começou com uma excelente sessão plenária de Daniel Hirata (UFRJ), que focou nosvendedores ambulantes, com base em pesquisa etnográfica realizada na Feirinha da Madrugada em São Paulo e no camelódromo da Uruguaiana no Rio. Hirata analisou a complexa teia de relações entre ambulantesoportunistas (os “paraquedistas”) e os mais estabelecidos, empresas de segurança privada, a polícia e o governo local, destacando, por exemplo, como o processo de militarização da sociedade civil já está bem encaminhado nesses contextos. A discussão sobre a ocupação ilícita dos espaços urbanos continuou com Silvia Zelaya (UFRS) em seu relato de estratégias de resistência, incluindo a produção musical e cinematográfica, desenvolvida por imigrantes e refugiados em ocupações em São Paulo. Da mesma forma, o papel dos guardas de segurança privados foi revisitado por Erika Robb Larkins (Universidade Estadual de San Diego) em seu fascinante relato sobre o treinamento do qual participou ao lado de novos recrutas para um programa de segurança de hospitalidade em São Paulo.

O que emergiu nessas e em várias outras apresentações foram reflexões profundas sobre a intersecção entre a lei, como é amplamente entendida, e a ocupação de diferentes espaços, sejam eles o teatro de revista transgressor em áreas centrais urbanas no início do século 20 (Lisa Shaw, Universidade de Liverpool), o Senado brasileiro como kangaroo court ou pseudotribunal tal como vislumbrado no filme O processo (2018) (Stephanie Dennison,  Universidade de Leeds), a rua depois do anoitecer no filme em O som ao redor (Sara Brandellero, Leiden) ou a favela como espaço pacificado (Christoffer Guldberf, King’s London). Brasileiros residentes no exterior, tanto legal como ilegalmente, surgiram como outro tema popular, com apresentações sobre ficção escrita por / sobre imigrantes ilegais brasileiros (Claire Williams, Oxford e Anderson da Mata, UnB), e percepções e autopercepções de brasileiros baseados em Londres (Daniel Buarque, King’s London e Daniel Robins, St Andrews). Uma série de apresentações abordou a questão da cidadania e suas implicações quando os direitos ou o estatuto legal estão sob ameaça ou são pouco claros (Allane de Souza Pedrotti, da PUC-Rio; Bianca Freire-Medeiros, USP) e outros chamaram a atenção para estratégias de resistência para combater essas questões (Tori Holmes, Queen’s Belfast; Maite Conde, Cambridge). Malandragem e jeitinho como conceitos culturais talvez inevitavelmente tenham inspirado o trabalho de vários apresentadores e discussões subsequentes: a segunda palestra plenária, de Freidrich Frosch (Universidade de Viena), ofereceu um belo panorama de ambos os conceitos em relação à literatura brasileira.

A exibição de filme e debate com a diretora Adriana Jacobsen caiu como uma luva no tema da conferência e no clima eleitoral: Outro sertão revela o papel de Guimarães Rosa na ajuda a judeus a escaparem da Alemanha nazista, quando exercia a função de vice-Cônsul em Hamburgo durante a Segunda Guerra Mundial, , dobrando as regras consulares e emitindo vistos de turista para eles fugirem para o Brasil.

A conferência revelou uma ampla abordagem interdisciplinar para a leitura da cultura brasileira, com apresentações de estudiosos de Antropologia, Sociologia, Estudos Literários, Estudos de Cinema, Cultura Digital, Política, Relações Internacionais e Sociolinguística. Diversos apresentadores são pesquisadores de início de carreira e apresentaram de forma auto-confiante juntamente com estudiosos mais estabelecidos.

O cronograma da conferência proporcionou bastante tempo para discussão, que frequentemente retornava às eleições presidenciais iminentes. Um grande número de delegados expressou considerável apreensão em relação ao aumento da intolerância e do preconceito no Brasil e preocupação com o futuro da democracia e da liberdade acadêmica. A relevância do trabalho da REBRAC em oferecer um espaço favorável e propício para a promoção dos Estudos Brasileiros foi sentida ainda mais intensamente como resultado dessa apreensão e preocupação.

Stephanie Dennison

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